Our Recent Posts

Tags

Lições de Flamengo e Grêmio para o Santos renegociar perfil de sua dívida

O torcedor mais atento do Santos FC tem vivido uma contradição diária nos últimos meses. De um lado, acompanha cada rodada sonhando com o título do Campeonato Brasileiro de 2019. De outro, se preocupa com as notícias sobre a saúde financeira do clube. O dinheiro da venda do Rodrygo acabou? Será que vamos ter dinheiro para pagar os salários até o fim do ano? A gestão Peres está se organizando para não termos um déficit maior de 5% nas demonstrações financeiras de 2019 e 2020, o que poderia nos eliminar do Profut?

De fato, o panorama financeiro do alvinegro praiano é bastante delicado. Apesar de não sermos o único clube grande nesta situação, alguns de nossos rivais nacionais têm avançado bastante em termos de gestão nos últimos anos. Os clubes mais elogiados no mercado são Grêmio, Flamengo, Palmeiras e Bahia. Esses quatro casos foram apresentados com detalhe no primeiro dia da Brasil Futebol Expo, que acontece nesta semana em São Paulo.

Um ponto central de melhora de gestão é a renegociação ou a mudança do perfil das dívidas dos clubes. Grosso modo, há quatro tipos de dívidas no futebol: trabalhistas (que tendem a ser executadas mais rapidamente), fiscais (teoricamente sob controle devido ao Profut), bancárias (que costumam cobrar juros bastante acima do mercado) e com outros atores do mercado, como federações, empresários e fornecedores, variando as condições de caso a caso. Será que podemos aprender algo com o trabalho realizado por Flamengo e Grêmio, semifinalistas da Copa Libertadores deste ano?

Líder do Brasileirão junto com o Santos, o Flamengo tem gastado dezenas de milhões de reais a cada janela de transferências. Mas, em 2013, o clube carioca quase caiu para a série B no ano em que a Justiça rebaixou a Portuguesa. De lá para cá, duas ações principais foram adotadas. Em primeiro lugar, o Flamengo deu continuidade a um acordo dos maiores clubes do Rio de Janeiro com a Justiça do Trabalho para evitar penhoras. A ação de penhora prejudica profundamente os clubes, que muitas vezes têm seus estádios, centros de treinamento e contas bancárias bloqueados, causando atrasos nos salários, por exemplo. Com o acordo, o Flamengo passou a dedicar uma porcentagem mensal de suas receitas para o pagamento de acordos trabalhistas, em troca de não sofrer mais nenhuma penhora. Essa medida permitiu um melhor planejamento financeiro do Flamengo, que pagava suas dívidas trabalhistas e não tinha suas receitas bloqueadas.

A segunda medida foi feita pelo presidente Eduardo Bandeira de Mello na ocasião do acordo com a Adidas, a partir de 2013. Em vez de usar as luvas do contrato para a contratação de jogadores, Bandeira de Mello renegociou as dívidas federais, conseguindo obter a certidão negativa de débitos. Com essa certidão, o Flamengo passou a ser patrocinado pela Caixa, gerando um ciclo virtuoso que se mantém até hoje.

Slide da apresentação de Vitor Butruce, presidente da Câmara Nacional de Resolução de Disputas

Já o Grêmio adotou uma medida diferente para enfrentar as suas dívidas. Também com o objetivo de evitar penhoras, o clube gaúcho criou um “condomínio de credores”. O Grêmio admitiu dívida de R$ 8,6 milhões para 12 credores, fechando acordo para pagar esse valor no decorrer de 5 anos usando um percentual das receitas líquidas sobre direitos de TV, transferência de atletas, mecanismos de solidariedade e outras premiações.

Hoje, depois de um curto período de dificuldades dentro de campo, o perfil das dívidas de Flamengo e Grêmio é infinitamente mais saudável que o do Santos. Mais preocupante que isso, o alvinegro praiano parece parado no tempo, sem tomar nenhuma atitude que melhore a sua situação financeira. Pelo contrário, dependemos quase exclusivamente da venda de atletas (algumas vezes que nem são mais nossos, como o caso de Neymar) para pagar as contas.

O objetivo deste texto, porém, não é criticar a gestão Peres, até porque ele é apenas mais um dos responsáveis por deixar a dívida do Santos chegar aonde está, juntamente com os gestores desta administração e das anteriores. A intenção aqui é apenas sinalizar que o Santos dispõe, sim, de inúmeras ferramentas para começar a melhorar a sua situação. Basta vontade e competência para negociar com os credores. Evitar penhoras, como ocorreu com parte do dinheiro do Rodrygo, é o primeiro passo por dias mais calmos na Vila Belmiro.

(*) Conselheiro eleito para o triênio 2018-2020, Vitor Loureiro Sion tem MBA em Indústria do Futebol pela Universidade de Liverpool e é autor de dois livros sobre a história do Santos FC. A opinião deste texto é de responsabilidade exclusiva do autor.

 

©2018 BY PRÓSANTOSFC. PROUDLY CREATED WITH WIX.COM

  • Facebook
  • Instagram
  • Twitter